resistência

Remoções em São Paulo revoltam população

Por Laio Rocha / Mídia Ninja

Foto: Thais Marinho / Mídia NINJA

“Eu não vou sair daqui”, protestou levantando a voz a peruana Eva, ao olhar o grupo de jornalistas, fotógrafos, advogados, ativistas, moradores e policiais que cercavam a quadra 36 do seu bairro, Campos Elíseos, no Centro de São Paulo.

Estava programada para às 5h desta segunda-feira (16) o início das remoções dos moradores da quadra 36, entre a Alameda Glete, Alameda Barão de Piracicaba, Rua Helvétia e Av. Rio Branco. São cerca de 50 imóveis e 200 famílias atingidas pela ação que tem o objetivo de limpar o terreno para construção do Hospital Pérola Byington.

A remoção foi programada após idas e vindas na justiça, que determinou na última sexta-feira (13) a retirada dos moradores de suas casas, após a decisão ter sido barrada na terça (10), com o acolhimento de ação do Ministério Público Municipal e da Defensoria Pública.

O MP argumentou que a prefeitura não realizou o mínimo exigido pelo Plano Diretor da Cidade, que exige a criação de um Conselho Gestor para intervenções no espaço. Isso porque, a área é uma Zona Especial de Interesse Social (ZEIS), em função disso, o Plano Diretor da cidade exige a participação da sociedade nas intervenções urbanísticas do espaço. No entanto, o TJ entendeu que há urgência para a construção do prédio e deu seguimento nas remoções.

Com um moletom fechado até o pescoço, o recém eleito Diretor do Conselho Gestor do bairro, Cosme da Silva, reclamava a falta de respeito com a população por parte do Governo do Estado de São Paulo e do Tribunal de Justiça.

O cargo dele se deve a uma ação relâmpago do governo, acossado pela necessidade de criar um conselho de moradores para atender a demanda judicial. “Eles que não venham agora oferecer auxílio moradia de 400 reais para os moradores. Nós queremos uma moradia digna e vou lutar por isso”, afirmou Cosme.

“Eu paguei essa casa a vista, tenho todos os documentos, por que eu tenho que sair?”, pergunta aos prantos a peruana Eva para o vereador Eduardo Suplicy (PT), que mediou o contato entre a representante da justiça que intimou a saída dos moradores de suas casas.

Com dois filhos, um menino de 4 e uma menina de 2, que sofre com problemas respiratórios, ela é mãe solteira e é empregada doméstica, com salário de 1.200 reais por mês. Abandonada por seu marido, que vive no Peru, ela tem em sua casa o refúgio para criar os filhos e conseguir manter o tratamento médico da caçula.

“Uma faxineira ganha 1 mil reais por mês, trabalhando 12 horas por dia. Eu não tenho condições de pagar um aluguel, que até na favela está 900 reais”, disse desesperada. “Eu preciso de um teto para os meus filhos”.

O Governo do Estado, comandado por Márcio França (PSB), comunicou os moradores de sua saída a partir da sexta-feira (13), em um documento que destacava a entrega de 5 caixas de papelão e um lanche para as famílias.

“Eu não vi ninguém recebendo nada aqui. Eu nem vi caixas de papelão para ninguém”, contou a moradora Andressa Cosme. Ela saiu de sua casa, em que morava de aluguel, no último sábado. Com seu parceiro, foi morar em uma pensão na quadra vizinha.

“Nós nunca fomos procurados pelo poder público para conversar. Nós que fomos atrás da juíza para falar a situação em que nos encontramos. Ela pareceu se compadecer do problema, falava assim: “ai, quantas crianças, não quero deixá-las na rua”. Apesar disso, dois dias depois assinou o documento que nos retira de casa”, explica.

Apesar da urgência para construção do hospital, ainda não há projeto para iniciá-lo, conforme destaca o Fórum Aberto Mundaréu da Luz, grupo de ativistas, urbanistas e advogados que vem acompanhando as remoções no bairro.

O Fórum construiu uma proposta inovadora para o bairro, a partir do mapeamento de uma série de imóveis subutilizados ou vazios que se encontram na região. A iniciativa, no entanto, vai por água abaixo com a determinação judicial pleiteada pelo governo estadual.

“No terreno, está prevista a construção do novo Hospital Pérola Byington, por meio de uma Parceria Público-Privada, cujo contrato foi firmado em 2014 com a empresa Inova Saúde, do grupo Construcap. O governo do Estado tem exigido urgência na remoção das famílias, mas nenhum projeto hospitalar foi sequer apresentado até agora”, afirma em carta aberta o Fórum, composto por cerca de 24 coletivos, ONGs, órgãos públicos independentes e associações.

“Eles acabaram de abrir um imenso complexo de prédios aqui do lado, porque não podemos morar lá?”, questiona o Diretor do Conselho Gestor, Cosme Silva. As 5 torres compreendem o Complexo Júlio Prestes, que oferecem 914 habitações de interesse social, no que promete ser uma “requalificação” da região.

No entanto, os moradores removidos não podem preencher as vagas do edifício, que foi inaugurado no último dia 28 de março, pelo ex-prefeito João Doria (PSDB) e o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). Na ocasião, enquanto os tucanos lançavam uma torre do complexo, a GCM executava ação repressiva contra a população de rua da chamada ‘Cracolândia’.

A repressão voltou a acontecer no último dia 11/04, quando a GCM e a Polícia Militar mais uma vez utilizaram bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha contra a população de rua. Ao menos duas pessoas ficaram feridas, uma com um tiro no rosto e outra no braço.

“Quem eles querem morando aqui, não está disposto a ver pessoas em situação de rua. Esse gente “chique” quer retirar todos os moradores daqui. Eles não são gente como eu e você. Eles se sentem superiores”, explica Cosme.

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