Campos Elíseos

Leituras cartográficas a partir da escola pública: o que pega para a juventude que estuda na região do Campos Elíseos, centro da cidade de São Paulo

Os alunos de ensino médio da Etec Doutora Maria Augusta Saraiva são de diferentes lugares da região metropolitana de São Paulo. Desde lugares mais distantes – municípios vizinhos, como Caieiras e Mairiporã e bairros periféricos das regiões leste e norte – até aqueles que residem na região central, principalmente Campos Elíseos o bairro que a escola pertence. Muitos desses alunos escolhem a Etec Maria Augusta Saraiva, por ser uma das poucas que oferece o ensino médio regular não integrado com o técnico, assim o aluno não é obrigado a permanecer na escola em tempo integral, o que possibilita o acesso ao mercado de trabalho no contraturno da escola. Outro fator preponderante na escolha da Etec é sua localização privilegiada, próxima a terminais de ônibus e linhas de trem e metrô.

Existe, portanto, uma diversidade de estudantes da Etec, o que proporcionou diversas leituras do território onde está inserida a escola. Por mais que seja um território comum entre os alunos, as formas como cada um se relaciona com ele são distintas.

Para discutirem de forma aprofundada os diferentes pontos de vista sobre o  território, os alunos participaram anteriormente de duas atividades levadas para dentro da escola no contexto das aulas de geografia, ambas realizadas em 2017: (i) uma roda de conversa sobre Redução de Danos, com mediação de Rafael Pelletti do coletivo “A Craco Resiste”, que abordou a temática das drogas como uma questão social,  para além da dependência química individual,, com foco na problemática específica da população em situação rua que circula pelos fluxos da Cracolândia. O mediador apresentou propostas para solução desses problemas na perspectiva da redução de danos, que ao invés de criminalizar ou isolar essas pessoas da sociedade, propõe programas  de atendimento social e espaços de acolhimento; e (ii) uma aula aberta sobre a geografia do bairro, com foco nas desigualdades e disputas em torno dos bairros Luz e Campos Elíseos. A atividade foi ministrada pelo geógrafo João Victor Pavesi de Oliveira que destacou a localização da escola e os conflitos presentes no entorno, tais como a presença de formas precárias de moradia, a cena de uso de drogas presente nos fluxos da cracolândia, e a existência de projetos urbanos controversos, que ignoram a população que reside, trabalha e circula nesse território.

Para avaliar a criticidade desenvolvida a partir das reflexões sobre o território, os estudantes representaram os conflitos e interesses que tangem o projeto Nova Luz. É possível sintetizar o conhecimento construído pelos estudantes com a representação da “Expansão comercial” e do “O jogo dos interesses”, imagem 1 e 2 respectivamente, que reconhece espacialmente a comunidade escolar dentro de uma geografia complexa e conflituosa.


Imagem 1: mapa afetivo “expansão comercial” elaborado pelos alunos

 

Imagem 2: mapa afetivo “jogo de interesses” elaborado pelos alunos

O levantamento das questões territoriais e a identificação dos conflitos nos bairros Campos Elíseos e Luz, continuou em 2018 com os estudantes da segunda série do ensino médio. Os estudantes foram incentivados a pesquisar informações sobre as propostas de intervenção para o território, em especial  a proposta de construção de um plano alternativo, o “Campos Elíseos Vivo”, elaborado a partir da colaboração entre profissionais do urbanismo, redução de danos e cultura.

O Campos Elíseos Vivo chamou a atenção dos alunos. A partir disso foi agendada uma ação com o Fórum Aberto Mundaréu da Luz – rede de coletivos e instituições responsável pelo desenvolvimento do plano alternativo – para apresentar a proposta em detalhes e, principalmente, ouvir as propostas dos estudantes ao projeto. A atividade aconteceu no teatro da Cia. Pessoal do Faroeste, no dia 21 de maio de 2018, dia que marcou 1 ano de uma grande ação policial que aconteceu no território. Antes mesmo de iniciar a atividade os estudantes notaram as mudanças na paisagem durante o percurso entre a escola e o teatro. Por exemplo, a mudança das tipologias das construções e também do perfil socioeconômico das pessoas.

Ao chegar no local da visita, os estudantes assistiram a uma apresentação do Projeto Campos Elíseos Vivo, com a facilitação do pesquisador Aluízio Marino. Nesse encontro foi possível identificar as atuais disputas em torno do território, bem como, as propostas do Fórum para resolução das problemáticas existentes. Houve participação ativa dos estudantes, que destacaram o processo de construção como ponto alto do projeto, já que as propostas para o território foram formuladas a partir  de escutas e vivências com os moradores, comerciantes e profissionais atuantes na região.

Em um segundo momento, os estudantes partilharam o preparo do almoço e participaram de uma roda de conversa sobre o ciclo de produção dos alimentos. A união entre todos os presentes proporcionada pelo encontro e pela fartura, gerou uma consciência coletiva sobre novas formas de se alimentar, o que gerou uma discussão – entre os estudantes, fazendo-os enxergar o valor do alimento.

Após a vivência  os estudantes realizaram um  mapeamento coletivo, momento em que se sentiram protagonistas do processo. O mapeamento foi dividido em três etapas: “relação da escola com o bairro”, “o que pega para a juventude” e “como pode ser”. O processo cartográfico evidenciou uma série de questões, dentre elas destacam-se:

  • A compreensão de que esse é um território com forte expansão comercial, marcado por interesses imobiliários.
  • A existência de uma diversidade populacional, território com grande circulação de pessoas com diferentes perfis. Por sua localização, a Etec se posiciona no território como um meio para acessar uma educação pública de qualidade. Os alunos também destacam  a existência de áreas de lazer e a grande concentração de equipamentos culturais.
  • Os alunos reconhecem o valor histórico do bairro Campos Elíseos e entendem que a paisagem precisa ser preservada junto com a necessidade de moradia das pessoas que vivem no território. Pensar outras formas de morar, não apenas em apartamentos.
  • Implementar as propostas do Campos Elíseos Vivo.  O projeto provocou nos estudantes reflexões pouco discutidas no ambiente escolar, tais como: a descriminalização das drogas e práticas de redução de danos.
  • A comunidade escolar precisa  estabelecer uma relação mais próxima com as  problemáticas presentes no bairro. A proposta de estabelecer um território educacional ficou evidente nos mapas coletivos.
  • Existe uma sensação de insegurança/segurança fragmentada pelo território. A presença da polícia e de seguranças particulares, especialmente nos locais onde há a presença do fluxo, trazem ao mesmo tempo uma sensação de segurança e de exclusão social.
  • Formação de uma uma rede educacional, na qual as escolas dialoguem entre si e com os outros atores presentes na região para assim ampliar e fortalecer o processo de ensino e aprendizagem no território escolar.
  • Os alunos já se relacionam com os moradores e comerciantes do bairro, é preciso romper as barreiras institucionais, por exemplo, permitir aos moradores em situação de rua o uso compartilhado com os alunos da quadra de esportes na Praça Princesa Isabel ou no Largo Coração de Jesus.
  • A estrutura e os cursos oferecidos pela Etec – bem como das outras escolas da região – podem colaborar para o desenvolvimento do bairro como um todo, oferecendo infraestrutura e atividades para moradores e comerciantes locais.
Mapa coletivo 1. O que pega para a juventude?

 

Mapa coletivo 2. Como minha escola se relaciona com o bairro?

 

Mapa coletivo 3. Como poderia ser?

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