Cartilha Renda Básica Emergencial – pandemia de covid19

O Fórum Aberto Mundaréu da Luz elaborou uma cartilha de prevenção ao novo coronavírus e com informações sobre os benefícios sociais disponibilizados pelos governos federal, estadual e municipal. A cartilha foi elaborada com foco nos moradores de cortiços, pensões e ocupações da área central de SP, mas pode ser adaptada para outras regiões da cidade. Segue aqui abaixo a cartilha, aqui tem em PDF.

Coronavírus: medidas urgentes de proteção às pessoas em situação de vulnerabilidade

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
À Prefeitura de São Paulo
Ao Governo do Estado de São Paulo
À Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social
À Secretaria de Segurança Pública
À Secretaria Municipal de Saúde
À Secretaria Municipal de Habitação
À SP Urbanismo
Ao Ministério Público do Estado de São Paulo
À Defensoria Pública do Estado de São Paulo
Ao Tribunal de Justiça de São Paulo

A chegada do coronavírus (COVID-19) está impactando a vida de muitas pessoas na cidade de São Paulo. Muitos de nós, de forma acertada, têm passado os últimos dias em isolamento, dentro de casa. Mas e aqueles que não têm casa, o que devem fazer?

Os impactos de uma pandemia são ainda mais duros em contextos de vulnerabilidade. Certamente, a população em situação de rua requer proteção especial, uma vez que enfrenta obstáculos muito maiores para cumprir com as medidas de prevenção básica da doença. Esta população lida com a falta de acesso a materiais de higiene pessoal, à assistência médica, à água e à alimentação e, por fim, a falta de moradia impossibilita a concretização da recomendação de isolamento social.

Ainda, os grupos de risco mais suscetíveis à infecção pelo coronavírus compreendem pessoas idosas, gestantes e pessoas com doenças crônicas, imunossupressoras, respiratórias e outras comorbidades preexistentes que possam conduzir a um agravamento do estado geral de saúde a partir do contágio, com especial atenção para diabetes, tuberculose, doenças renais, HIV e coinfecções. Dados do Ministério da Saúde, por exemplo, apontam que a prevalência de tuberculose entre as pessoas em situação de rua pode ser até 70 vezes maior que a população geral.

Na cidade de São Paulo, os dados do censo divulgado neste ano indicam que pelo menos 24 mil pessoas vivem nas ruas, sendo que 3 mil são mais suscetíveis à complicações pois têm mais de 60 anos. Embora a prefeitura tenha definido um protocolo de atendimento para casos suspeitos entre a população em situação de rua, ainda não foram implementadas ações de prevenção e proteção.

Moradia é direito básico. Estudos e práticas internacionais mostram que o acesso à moradia diminui significativamente demandas em outros serviços de assistência social, saúde e justiça. Os ganhos são para toda sociedade.

Neste cenário de pandemia, estratégias de prevenção e proteção são urgentes e devem ser pensadas de acordo a cada contexto. Uma realidade que merece atenção especial é a região dos Campos Elíseos, numa região demarcada pelo Plano Diretor de São Paulo como uma Zona Especial de Interesse Social, uma ZEIS 3, e onde se situa a área conhecida por cracolândia.

Nesta ZEIS e no seu entorno imediato, as pessoas encontram-se em situação cada vez mais vulnerável, muito em decorrência de ações e do descaso do próprio Estado. Seja pelo recente desmonte de equipamentos e serviços de atendimento e acolhida a pessoas em situação de rua, pela constante e crescente violência policial, pela ameaça iminente de despejo de centenas de pessoas que vivem em pensões e hotéis dos dois quarteirões onde o fluxo da cracolândia costuma se concentrar, ou da remoção pelo poder público de quase 200 famílias de um quarteirão inteiro sem que houvesse atendimento habitacional adequado.

Se a conjuntura já era complicada e a infraestrutura dos equipamentos existentes insuficiente num cenário pré COVID-19, agora a tendência é de agravamento da situação, caso medidas adequadas não sejam tomadas. As pessoas daquela região, sobretudo as que estão em situação de rua, não têm o mínimo necessário para conter a disseminação do vírus, como torneiras para lavar as mãos, banheiros públicos, álcool gel, muito menos moradias e\ou abrigos em escala suficiente para o isolamento social.

Complica ainda mais o fato da prefeitura determinar a paralisação das ações de organizações da sociedade civil conveniadas que atendem diariamente essas pessoas, orientando e promovendo medidas de redução de danos. Outra preocupação é que o modelo de confinamento adotado em centros de acolhida da região como política de quarentena: quem entra não poderá mais sair e, se sair, não poderá regressar.

Soma-se a isso a portaria anunciada pelo Ministério da Justiça na última terça feira, que prevê medidas como a realização de internações compulsórias e a prisão de até 15 dias a dois anos de pessoas contaminadas ou suspeitas de contaminação por COVID 19, que tenham descumprido a quarentena. Medidas estas que contribuem apenas para o uso arbitrário da força policial e a propagação da infecção nos presídios brasileiros, comprovadamente insalubres conforme atestado pelo Supremo Tribunal Federal na ADPF 347/2015.

Continuar com a política de cerceamento e violência só vai piorar a situação. Essas medidas adotadas recentemente tiveram como resultado o aumento do fluxo, e não sua diminuição, como era previsto pela prefeitura. É necessário e urgente que sejam adotadas medidas de proteção a essa população, sejam as pessoas que fazem uso de crack, sejam as inúmeras famílias e comerciantes que vivem e trabalham no entorno do fluxo em moradias e imóveis precários.

Neste momento, é preciso que o Estado assuma sua responsabilidade e adote medidas adequadas à proteção e à realidade das famílias mais vulneráveis. Por tais motivos, exigimos aos governos, instituições, órgãos e autoridades que adotem, em caráter de urgência, as seguintes medidas e ações de prevenção da disseminação do coronavírus, garantindo saúde pública para as pessoas em situação de vulnerabilidade, em especial aquelas que habitam e circulam na região dos Campos Elíseos:

  1. Interrupção dos processos de despejo dos moradores. Este processos devem acontecer apenas com o atendimento habitacional imediato, em moradia próxima e em condições adequadas para o isolamento e com acompanhamento adequado da equipe social antes, durante e após a mudança para a nova moradia, de modo a garantir que nenhum direito seja violado, inclusive , à saúde pública, à educação, etc.;
  2. Suspensão, por pelo menos 60 dias, das cobranças de parcelas e prestações das famílias beneficiadas por programas habitacionais como locação social, carta de crédito ou outros tipos de financiamento, em razão da interrupção e proibição de atividades econômicas geradoras de renda para boa parte dessa população;
  3. Garantia do acesso à moradia digna para as pessoas em situação de rua e que fazem uso de drogas. Para isso, sugerimos a promoção do serviço de moradia terapêutica para pessoas em situação de rua nos prédios públicos vazios da região central. Este serviço deve estar associado ao acompanhamento psicossocial, promovendo não só melhores condições para a contenção da COVID-19, mas também proporcionando a reabilitação e a reinserção social de pessoas que hoje estão em condições de extrema vulnerabilidade social e baixa autonomia, evitando apreensões e prisões de pessoas com pequenas quantidades de drogas;
  4. Oferta urgente de moradia terapêutica para a quarentena de moradores em situação de rua, testados positivos para o COVID-19 ou com suspeita de contaminação em edifícios públicos vazios localizados na área central adaptados para o uso residencial assistido, de acordo com os protocolos de habitabilidade, saúde e assistência social.
  5. Oferta urgente de moradia a idosos em situação de vulnerabilidade, em edifícios públicos vazios adaptados para o uso residencial assistido, de acordo com os protocolos de habitabilidade, saúde e assistência social.
  6. Suspensão das ações de repressão coletiva na cracolândia, realizadas pela Polícia Militar, Civil e Guarda Civil Metropolitana, que envolvem a utilização de instrumentos de repressão como bombas e balas de borracha;
  7. Suspensão do cumprimento e emissão de mandados de busca e apreensão expedidos anteriormente na região da cracolândia para investigação de delitos não violentos, como tráfico de drogas, evitando prisões de grande quantidade de pessoas simultaneamente e superlotação em carceragens policiais;
  8. Instalação de torneiras, bebedouros e banheiros públicos dotados de toda infraestrutura necessária para o correto saneamento e higienização da população, com água encanada, sabonete líquido, papel higiênico/toalha e álcool gel;
  9. Realização e intensificação de ações de prevenção e redução de danos, com insumos (sabão líquido, álcool gel, máscaras, piteiras) e orientações específicas.
  10. Disponibilização de acesso à alimentação adequada, inclusive líquidos, para garantir um estado de saúde minimamente adequado. Esta demanda requer a continuidade da atuação dos restaurantes populares para atendimento da população de rua e a distribuição de cestas básicas para as famílias que vivem em moradias precárias;
  11. 1. Revisão e garantias de recebimento do Benefício de Prestação Continuada (BPC), uma vez que muitas pessoas em situação de rua, especialmente idosas, tiveram essa transferência de renda negada;
  12. Garantia da oferta de renda mínima ou ajudas de custo mensais, de caráter emergencial, para as pessoas mais sensíveis aos impactos econômicos neste período de controle da pandemia: como famílias muito vulneráveis, trabalhadores informais, autônomos e pequenos comerciantes e também às famílias que forem afetadas pelos cortes de programas federais de transferência de renda;
  13. Garantia o adequado funcionamento dos equipamentos de assistência social, adequados para atuar com cuidados e prevenção à COVID-19.
  14. Ampliação as medidas de prevenção nos albergues municipais, como compras extras de álcool gel, material de limpeza desinfetante, máscaras, luvas aventais e macacões descartáveis para os funcionários, usuários e prestadores de serviços;
  15. Suspensão da cobrança das contas de água e energia elétrica para as famílias em situação de vulnerabilidade social, visto que estas dependem de renda proveniente de trabalho informal que não poderá ser continuado neste período.

Pela nossa experiência e vínculo com o território dos Campos Elíseos, as medidas aqui apresentadas têm grande aderência. Mas, certamente, elas deveriam ser estendidas a todo o conjunto da população em situação de rua da cidade, assim como para diversas cidadãs e cidadãos que vivem em moradias com condições precárias.

Para além das medidas emergenciais aqui exigidas, é importante afirmar que também são necessárias ações mais consistentes, de longo prazo, capazes de reverter a situação atual de extrema vulnerabilidade em que esta população se encontra.

O respeito pela diferença e a diversidade tornam-se fundamentais para avançarmos em uma ideia de cidade que contemple as necessidades e desejos de seus cidadãos. Políticas públicas de cuidado, proteção social, habitação, cultura, entre outras, devem dialogar com a perspectiva de valorizar a vida comunitária que existe em cada lugar.

Nesse sentido, nós já produzimos o plano urbanístico e social Campos Elíseos Vivo, desenvolvido pelo Fórum Aberto Mundaréu da Luz, que aglutina propostas focadas para os Campos Elíseos, mas que também poderiam ser adequadas e implantadas em outros territórios. Trata-se de uma alternativa concreta que, em tempos de pandemia pelo coronavírus, pode ser uma ferramenta potente de proteção à vida das pessoas e que nos auxilia a experimentar uma cidade mais participativa e inclusiva, que cuide de todas e todos.

Assinam essa carta:
Ação da Cidadania
A Craco Resiste
Centro de Convivência É de Lei
Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos
Cia. Mungunzá de Teatro
Comissão de Direitos Humanos OAB-SP
Conectas Direitos Humanos
Clínica de Direitos Humanos Luiz Gama
Emau – mosaico
Fique Vivo Clínica Social
Fórum Aberto Mundaréu da Luz
Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas – INNPD
Instituto dos Arquitetos do Brasil – São Paulo – IABsp
Instituto Luz do Faroeste
Instituto Pólis
Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade – LabCidade FAUUSP
Laboratório Justiça Territorial – LabJUTA UFABC
Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento – Pimentalab/Unifesp
Teatro de Contêiner
Observatório de Remoções
Movimento Nacional de Direitos Humanos de São Paulo (MNDH-SP)
Núcleo de Defesa e Direitos Humanos da População em Situação de Rua – SP – NDDH -SP

Fórum Aberto Mundaréu da Luz ganha prêmio IAB 2019 e da Ouvidoria de SP

Na última semana, duas premiações contemplaram o Fórum Aberto Mundaréu de Luz. Na quarta-feira, 27 de novembro, a premiação da Ouvidoria Geral da Defensoria Pública de SP homenageou com o selo “Amigo da Ouvidoria” pela contribuição do grupo na colaboração do projeto “Ouvidoria na Área”.

Já na sexta, 29 de novembro, o Fórum foi premiado na categoria Ativismo Urbano da Premiação anual do Instituto de Arquitetos do Brasil, o Prêmio IABsp 2019, que teve como comissão julgadora Juliana Borges, Joice Berth, Renan Quinalha e Túlio Custódio.

A premiação do IAB teve por finalidade “identificar os avanços e desafios enfrentados na produção da arquitetura e urbanismo contemporâneos nacionais, de modo a reconhecer as propostas engenhosas e significativas, sobretudo aquelas que contribuam, efetivamente, para o desenvolvimento da técnica, do conhecimento e do ambiente construído em diálogo com a natureza, a sociedade, a economia e a cultura”. A instituição recomendou “que fossem privilegiadas no processo de avaliação àquelas propostas que apresentem qualidades decoloniais, contra-hegemônicas; que exercitem novas linguagens, novas formas de uso e ocupação; que valorizem criticamente a memória do ambiente construído e sua relação com a sociedade; e que promovam profundas reflexões conceituais e contextuais sobre diferentes aspectos relacionados à cadeia produtiva da produção do espaço, material e imaterial.”

O Mundaréu da Luz reúne instituições e pessoas das mais diversas áreas que atuam na região da Luz, em São Paulo. Nasceu em maio de 2017 como frente de reação às ações violentas e autoritárias do poder público na região. O objetivo do Fórum é propor alternativas, a partir do diálogo com os moradores e comerciantes, que garantam mais qualidade de vida à população do bairro.

Também foram premiados na mesma categoria o MSTC pelo trabalho na Ocupação 9 de julho e o projeto SerUrbano, urbanismo tático e ativo.

Veja as instituições e coletivos que fazem parte do Mundaréu:

Ação da Cidadania
Centro de Convivência É de Lei
Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos
Companhia de Teatro Mungunzá
Companhia de Teatro Pessoal do Faroeste
A Craco Resiste
Defensoria Pública de São Paulo, núcleos especializados: Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres (Nudem), Habitação e Urbanismo (Nehaburb), Cidadania e Direitos Humanos (NECDH), Direitos do Idoso e da Pessoa com Deficiência (Nediped)
FLM – Frente de Luta por Moradia
Frente Estadual de Luta Antimanicomial (Feasp-SP)
Goma Oficina
INNPD – Iniciativa Negra por uma Nova Política Sobre Drogas
Instituto Pólis
LabCidade – Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade/FAUUSP
LabJUTA – Laboratório Justiça Territorial/UFABC
LEVV – Laboratório de Estudos da Violência e Vulnerabilidade Social/Mackenzie
Moradores e comerciantes das quadras 36, 37 e 38 do bairro Campos Elíseos
Mosaico – Escritório Modelo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo/Mackenzie
Movimento Integra
Observatório de Remoções
A Próxima Companhia de Teatro
REPEP – Rede Paulista de Educação Patrimonial
Sã Consciência
UMM – União dos Movimentos de Moradia

 

Inauguração do “Balcão de Direitos” na Luz

Com o aumento da violência policial neste ano na região e entorno da conhecida “cracolândia” de São Paulo, algumas mobilizações e ações foram iniciadas para tentar enfrentar essa situação dramática. Inclusive, essa foi demanda e pressão dos moradores, que, com razão, não suportam a situação insustentável que se prolonga (e se intensifica) há anos ali.

Dessas tentativas, surgiu uma conversa mais próxima, principalmente, entre o Fórum Aberto Mundaréu da Luz e a comissão de Direitos Humanos da OAB, acompanhada também por alguns promotores do Ministério Público e da Defensoria Pública do Estado. A ideia do Balcão de Direitos nasce dessa aproximação e articulação. Após alguns meses, muitas reuniões, planejamento, atividades de formação e preparo, a inauguração desse projeto aconteceu na última sexta-feira, dia 25 de outubro, no Teatro do Faroeste, que por meio de seu Instituto Luz do Faroeste também compõe e é parceiro do Balcão de Direitos.

A inauguração contou com a presença de representantes da Comissão de Direitos Humanos e População de Rua da OAB, assim como de outros membros dessa instituição, promotores do Ministério Público, ouvidor das polícias, defensor público da União e a coordenação do CONDEPE-SP. Estiveram presentes também o vereador Eduardo Suplicy e advogados de diferentes áreas e atuação. Do lado da sociedade civil, estavam coletivos e pessoas que compõem o Fórum Mundaréu da Luz e do pessoal do Faroeste, representantes da Cental de Movimentos Polulares (CMP), do movimento da população em situação de rua, coordenadores do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, liderança do Movimento de Moradia da Região Centro (MMRC) e moradores locais.

Todas as falas foram incisivas contra os ataques aos direitos que atingem a região, mas também pela defesa da constituição e da democracia. Defesa da democracia, sim, mas importante lembrar e questionar também que democracia é essa das polícias que matam nas favelas, periferias e cracolândias do nosso país? Foram essas e outras reflexões que ficaram ecoando com a fala e a força avassaladora de uma moradora, mãe, mulher negra e liderança da área. Ela foi a última a falar antes do encerramento do evento com uma apresentação de slam do artista Antônio Guerra. Foi dessa forma que o Balcão de Direitos começou a existir de modo concreto no mundo real: sabendo de suas limitações, mas combativo e cheio esperança.

Lembrando que o atendimento para o público em geral, de forma gratuita, começa pra valer na quinta-feira, dia 31, das 17h às 19h, no Faroeste. Nesse início, os plantões serão todas as quintas com atendimento e orientações de advogadxs voluntárixs e pessoas da sociedade civil, do Fórum Aberto Mundaréu da Luz e de outros coletivos atuantes no território. Haverá também a presença de assistentes sociais e psicológxs voluntárixs nos atendimentos. O plantão não pode fazer defesa jurídica, mas orientar, esclarecer e dar encaminhamentos referentes a qualquer processo e dúvida geral.

Vamo em frente e vamo firme com o Balcão!
E que essa experiência possa se fortalecer e multiplicar por outros muitos lugares que também sofrem cotidianamente com a violência e a ataques aos direitos.


* O Fórum Mundaréu da Luz reúne instituições e pessoas das mais diversas áreas que atuam na região da Luz, em São Paulo. O coletivo existe desde maio de 2017 e nasceu como frente de reação às ações violentas e autoritárias do poder público na região. O objetivo do Fórum é propor alternativas, a partir do diálogo com os moradores e comerciantes, que garantam mais qualidade de vida à população do bairro. Site: https://mundareudaluz.org

Nota contra a criminalização das famílias que ocupavam edifício no Largo do Paissandu

largo do paissandu
Edifício no Largo do Paissandu, 95, que desmoronou após incêndio na madrugada do dia 1º de maio de 2018 (Foto: Google Street View)

ENQUANTO MORAR FOR PRIVILÉGIO, OCUPAR É UM DIREITO: #QUEMOCUPANÃOTEMCULPA

Na madrugada do dia 01 de maio de 2018, em São Paulo, uma tragédia aconteceu na ocupação do Largo Paissandu. As entidades e movimentos sociais que atuam na defesa do direito à moradia vêm manifestar solidariedade às famílias que estavam no imóvel. É inadmissível que este momento de tristeza e dor seja manipulado pelos verdadeiros responsáveis por tais situações para criminalizar os movimentos e os trabalhadores de baixa renda, que não têm alternativa senão viver nas ocupações.

As famílias que vivem em ocupações são vítimas do descaso, da irresponsabilidade do Estado e da especulação imobiliária – que impõem alto custo de habitação, sobretudo nas áreas centrais. Não é a primeira e não será a última tragédia, enquanto o investimento público para o enfrentamento do problema habitacional não for significativo e comprometido com o acesso à moradia como um direito.

Enquanto a população de baixa renda é penalizada, os latifúndios urbanos concentram dívidas milionárias e descumprem reiteradamente a Constituição Federal. A Prefeitura desrespeita o Plano Diretor, uma vez que há mais de um ano deixou de notificar os proprietários de imóveis que não cumprem a função social da propriedade, o Governo Federal corta o Programa Minha Casa Minha Vida para os mais pobres e o Governo do Estado tem apostado suas ações na implantação das Parcerias Público-Privadas, que não atendem os mais pobres e enriquecem as empreiteiras e donos de imóveis. Ainda, o Poder Judiciário – que goza de um imoral auxílio moradia – ignora o descumprimento da lei pelos proprietários e se posiciona, via de regra, pelo despejo e remoção de milhares de famílias, agravando a desigualdade social. Existem inúmeros imóveis públicos em plenas condições de reforma para uso habitacional.

As ocupações são a resposta das famílias organizadas frente a essa situação. Os atuais Governos, ao acusar os movimentos, demonstram uma atitude covarde por parte daqueles que são os principais responsáveis por essa crise e, em aliança com o mercado, pelo aprofundamento da tragédia urbana.

Por fim, reiteramos unidade na resistência de cada ocupação e exigimos: a responsabilização do Estado em cada recusa à regularização de energia elétrica, saneamento e prevenção de riscos em ocupações; o investimento público na viabilização de moradias dignas; o enfrentamento à especulação imobilária; políticas de mediação de conflitos fundiários com participação popular; a conversão dos edifícios ociosos em moradia popular; e a regularização fundiária de ocupações.

Quantos prédios ainda irão cair até que sociedade e governos entendam que a moradia é um direito de todos e um dever do Estado? Permaneceremos mobilizados.

São Paulo, 1 de maio de 2018

Central de Movimentos Populares
Frente de Luta por Moradia
União dos Movimentos de Moradia
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto
Movimento Moradia para Todos
Frente Brasil Popular
Frente Povo Sem Medo
Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos
Peabiru TCA
Usina Ctah
LabJuta UFABC
Coletivo de ocupações, favelas e cortiços da cidade de São Paulo
Observatório de Remoções
Observa SP
LabCidade FAU USP
LabHab FAU USP
Fórum Aberto Mundaréu da Luz
Sindicato dos Arquitetos de São Paulo
Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico
Instituto Pólis
Rede Mulher e Habitat
Secretaria Latino Americana de Vivienda y Habitat Popular
Coalizão Internacional do Habitat
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra Leste 1
Movimento de Moradia da Regiao Sudeste
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra da Zona Oeste
Unificação das Lutas de Cortiços e Moradia
Movimento em Defesa do Favelado da Região Belem
Movimento de Defesa dos Favelados – Santo André
Associação dos Sem Teto Taboao Diadema
Associação Independente da Vila Nova Esperança
Associação de Moradores da Sólon
Movimento de Moradia City Jaraguá
Movimento de Moradia na Luta por Justiça
Associação Nossa Luta Nossa Terra Diadema
Central Pró Moradia Suzanense
Movimento Independente de Luta Por Habitação de Vila Maria – Ocupação Douglas Rodrigues
Associação de moradores Pantanal capela do socorro
Movimento Terra Livre

 

Remoções em São Paulo revoltam população

Por Laio Rocha / Mídia Ninja

Foto: Thais Marinho / Mídia NINJA

“Eu não vou sair daqui”, protestou levantando a voz a peruana Eva, ao olhar o grupo de jornalistas, fotógrafos, advogados, ativistas, moradores e policiais que cercavam a quadra 36 do seu bairro, Campos Elíseos, no Centro de São Paulo.

Estava programada para às 5h desta segunda-feira (16) o início das remoções dos moradores da quadra 36, entre a Alameda Glete, Alameda Barão de Piracicaba, Rua Helvétia e Av. Rio Branco. São cerca de 50 imóveis e 200 famílias atingidas pela ação que tem o objetivo de limpar o terreno para construção do Hospital Pérola Byington.

A remoção foi programada após idas e vindas na justiça, que determinou na última sexta-feira (13) a retirada dos moradores de suas casas, após a decisão ter sido barrada na terça (10), com o acolhimento de ação do Ministério Público Municipal e da Defensoria Pública.

O MP argumentou que a prefeitura não realizou o mínimo exigido pelo Plano Diretor da Cidade, que exige a criação de um Conselho Gestor para intervenções no espaço. Isso porque, a área é uma Zona Especial de Interesse Social (ZEIS), em função disso, o Plano Diretor da cidade exige a participação da sociedade nas intervenções urbanísticas do espaço. No entanto, o TJ entendeu que há urgência para a construção do prédio e deu seguimento nas remoções.

Com um moletom fechado até o pescoço, o recém eleito Diretor do Conselho Gestor do bairro, Cosme da Silva, reclamava a falta de respeito com a população por parte do Governo do Estado de São Paulo e do Tribunal de Justiça.

O cargo dele se deve a uma ação relâmpago do governo, acossado pela necessidade de criar um conselho de moradores para atender a demanda judicial. “Eles que não venham agora oferecer auxílio moradia de 400 reais para os moradores. Nós queremos uma moradia digna e vou lutar por isso”, afirmou Cosme.

“Eu paguei essa casa a vista, tenho todos os documentos, por que eu tenho que sair?”, pergunta aos prantos a peruana Eva para o vereador Eduardo Suplicy (PT), que mediou o contato entre a representante da justiça que intimou a saída dos moradores de suas casas.

Com dois filhos, um menino de 4 e uma menina de 2, que sofre com problemas respiratórios, ela é mãe solteira e é empregada doméstica, com salário de 1.200 reais por mês. Abandonada por seu marido, que vive no Peru, ela tem em sua casa o refúgio para criar os filhos e conseguir manter o tratamento médico da caçula.

“Uma faxineira ganha 1 mil reais por mês, trabalhando 12 horas por dia. Eu não tenho condições de pagar um aluguel, que até na favela está 900 reais”, disse desesperada. “Eu preciso de um teto para os meus filhos”.

O Governo do Estado, comandado por Márcio França (PSB), comunicou os moradores de sua saída a partir da sexta-feira (13), em um documento que destacava a entrega de 5 caixas de papelão e um lanche para as famílias.

“Eu não vi ninguém recebendo nada aqui. Eu nem vi caixas de papelão para ninguém”, contou a moradora Andressa Cosme. Ela saiu de sua casa, em que morava de aluguel, no último sábado. Com seu parceiro, foi morar em uma pensão na quadra vizinha.

“Nós nunca fomos procurados pelo poder público para conversar. Nós que fomos atrás da juíza para falar a situação em que nos encontramos. Ela pareceu se compadecer do problema, falava assim: “ai, quantas crianças, não quero deixá-las na rua”. Apesar disso, dois dias depois assinou o documento que nos retira de casa”, explica.

Apesar da urgência para construção do hospital, ainda não há projeto para iniciá-lo, conforme destaca o Fórum Aberto Mundaréu da Luz, grupo de ativistas, urbanistas e advogados que vem acompanhando as remoções no bairro.

O Fórum construiu uma proposta inovadora para o bairro, a partir do mapeamento de uma série de imóveis subutilizados ou vazios que se encontram na região. A iniciativa, no entanto, vai por água abaixo com a determinação judicial pleiteada pelo governo estadual.

“No terreno, está prevista a construção do novo Hospital Pérola Byington, por meio de uma Parceria Público-Privada, cujo contrato foi firmado em 2014 com a empresa Inova Saúde, do grupo Construcap. O governo do Estado tem exigido urgência na remoção das famílias, mas nenhum projeto hospitalar foi sequer apresentado até agora”, afirma em carta aberta o Fórum, composto por cerca de 24 coletivos, ONGs, órgãos públicos independentes e associações.

“Eles acabaram de abrir um imenso complexo de prédios aqui do lado, porque não podemos morar lá?”, questiona o Diretor do Conselho Gestor, Cosme Silva. As 5 torres compreendem o Complexo Júlio Prestes, que oferecem 914 habitações de interesse social, no que promete ser uma “requalificação” da região.

No entanto, os moradores removidos não podem preencher as vagas do edifício, que foi inaugurado no último dia 28 de março, pelo ex-prefeito João Doria (PSDB) e o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). Na ocasião, enquanto os tucanos lançavam uma torre do complexo, a GCM executava ação repressiva contra a população de rua da chamada ‘Cracolândia’.

A repressão voltou a acontecer no último dia 11/04, quando a GCM e a Polícia Militar mais uma vez utilizaram bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha contra a população de rua. Ao menos duas pessoas ficaram feridas, uma com um tiro no rosto e outra no braço.

“Quem eles querem morando aqui, não está disposto a ver pessoas em situação de rua. Esse gente “chique” quer retirar todos os moradores daqui. Eles não são gente como eu e você. Eles se sentem superiores”, explica Cosme.

Como foi o lançamento do Campos Elíseos Vivo

Na terça-feira (3/4), a população que vive, trabalha e frequenta o bairro de Campos Elíseos e a Luz, centro de São Paulo, foi às ruas defender um projeto popular de autoria coletiva para melhorar a região, o “Campos Elíseos Vivo”. Esta proposta urbanística e social está em construção desde o segundo semestre de 2017, a partir do trabalho de entidades, pessoas, moradores e comerciantes que integram o Fórum Aberto Mundaréu da Luz. Desde então, a população diz o que quer para a região, considerando não apenas o que é preciso mudar e melhorar, como também aquilo que é importante permanecer e valorizar.

 

Foram dezenas de encontros, entre reuniões, oficinas, apresentações, debates e atividades na rua. A presença cotidiana do Mundaréu no bairro não apenas enriqueceu e deu mais consistência ao projeto alternativo, como também permitiu a criação de uma rede de apoio capaz de resistir às arbitrariedades promovidas pelo poder público.

Após a apresentação da proposta em uma coletiva de imprensa na rua do Triunfo, onde também falaram vereadores, representantes do Ministério Público e da Defensoria Pública, o Mundaréu realizou um cortejo-performance até o Largo Coração de Jesus, região conhecida hoje como “Cracolândia”. Com mangueiras de água aromatizada e macacão impermeável branco, mais de 30 pessoas fizeram a lavagem simbólica das políticas higienistas que, para ser implementadas, pressupõem a destruição de três quarteirões inteiros e a expulsão de todos os atuais moradores.

Depois, já no largo, aconteceu uma Audiência Cidadã, quando moradores e comerciantes locais contaram histórias da sua relação com o lugar. Ao microfone, também disseram o que desejam para o bairro e defenderam seus direitos. Enquanto os moradores falavam, as grades do largo ganharam painéis com esquemas das leituras sociais e territoriais feitas durante o processo de laboração do “Campos Elíseos Vivo”, assim como as principais propostas do projeto.

O ato foi encerrado com samba e projeções de poemas na fachada de um edifício histórico, celebrando a luta dos moradores por uma vida mais digna no bairro e por poderem decidir sobre os projetos que influenciam seu futuro.

Campos Elíseos Vivo

O Fórum Mundaréu da Luz apresenta uma proposta coletiva de intervenção urbanística e social: o projeto Campos Elíseos Vivo.

O projeto foi elaborado por diversas instituições e profissionais das mais variadas áreas, como urbanismo, saúde, direito, cultura e serviço social, e é o resultado de uma série de debates realizados junto com a população. O projeto mostra que, utilizando apenas imóveis vazios e subutilizados do bairro Campos Elíseos, seria possível viabilizar 3.500 unidades habitacionais ou comerciais, sem precisar demolir prédios históricos nem remover a população local.

A prefeitura e o governo do Estado de São Paulo preveem a construção de um empreendimento habitacional e de um hospital no local, que serão viabilizados por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP). Para concretizar o plano, as gestões têm muitas vezes praticado ações violentas contra a população, numa estratégia para limpar o terreno que não prevê atendimento digno nem para moradores nem para comerciantes ou usuários de drogas.

No atual cenário de autoritarismo, que silencia especialmente pessoas em situação de vulnerabilidade e que determina a remoção de moradores e comerciantes da região da Luz (com data e hora marcada, mas sem qualquer alternativa adequada de acolhimento), uma proposta que tem o diálogo como premissa é urgente.

Por isso, o Fórum Aberto Mundaréu da Luz, que já atua na região desde maio de 2017, desenvolveu essa proposta alternativa de intervenção, que já foi protocolada formalmente junto ao poder público. O lançamento oficial do projeto está marcado para o dia 3 de abril de 2018, como forma de mostrar que outro projeto de cidade é possível.

Você pode fazer download dos arquivos aqui:

CADERNO COMPLETO PLANO ALTERNATIVO LUZ  (PDF)